O artigo “O forasteiro e a. UFSM”é de autoria do jornalista Marcelo Canellas:

Um empresário forasteiro, prestes a instalar uma unidade de seu negócio na terra de Imembuy, achou que a melhor maneira de elogiar Santa Maria era esculhambar a Universidade Federal que leva o nome da nossa cidade. Baseado não sei em que critérios, ele disse que a UFSM recebe dinheiro demais. Foi como se um visitante entrasse na minha casa chutando o meu cachorro, cuspindo no assoalho, botando os sapatos enlameados em cima da mesa da sala e chamando a minha mulher de mocreia. Para completar a cena absurda, imaginei que alguns de meus filhos achassem graça e o aplaudissem. Pois não é que alguns de meus conterrâneos bateram palmas para o homem?

Como tenho a mania de tentar entender o argumento dos outros, procurei um conhecido que concorda com o tal empresário. O que ele me disse? Que a UFSM é uma baderna com alunos andando pelados pelo campus, consumindo drogas e que a maioria dos professores tem ideologia de esquerda. Confesso que, antes de ouvi-lo, eu estava sobressaltado. Esperava a revelação de alguma mutreta contábil, algum desvio de mérito, uma falha de desempenho, um flagrante descompasso da instituição com os interesses do país. Mas se é de gente pelada, drogas e esquerdistas que estamos falando, aí eu me tranquilizo bastante.

Estudei 5 anos na UFSM. Fiz um ano de agronomia e quatro de jornalismo. Nunca vi uma mísera estudante andando nua no campus. Até gostaria de ter visto, afinal corpos jovens nus são belos e costumam inspirar poemas. Mas não dei sorte. Também não conheço ninguém que tenha visto. Paciência. Parabéns a quem viu. Drogas eu acredito que existam. Trata-se de um mal onipresente de cuja sombra nem o presidente da república está a salvo. O coitado teve que passar pelo constrangimento de ver, no noticiário internacional, uma apreensão de 39 kg de cocaína no avião reserva de sua comitiva em viagem oficial. Se o presidente, que tem à sua disposição a Abin, a Polícia Federal e todos os serviços de inteligência do país não consegue se livrar do cerco das drogas, que dirá a universidade! Mas aí o problema é mais do governo do que da instituição.

Por fim, não sei a que censo de verificação de ideologia dos docentes esse meu conhecido recorreu, mas a ideia de que é ruim ter professor de esquerda é a maior das tolices. Não é bom nem ruim. Ideologias são visões de mundo. A universidade é o lugar onde são discutidas, debatidas, esmiuçadas e estudadas. Há ideologias de todos os matizes, e se há aqui alguma mais hegemônica do que acolá foi porque triunfou no debate das ideias. Nas universidades, as únicas ideologias impostas pela força são as que sustentam regimes totalitários. Numa democracia as pessoas escolhem o que querem ser.

O empresário que criticou a UFSM vai gerar 150 empregos. O que é um bom começo para ele e ótimo para o município que, com certeza, vai receber os impostos devidos. Mas o forasteiro vai ter de se esforçar um bocado se quiser se tornar importante para nós como a UFSM é. Pelo que me informei, o forte dele não é pagar salários muito altos. E os salários pagos aos quase 5 mil empregos diretos que a UFSM gera correspondem a 25% do PIB do município, circulando todo mês em consumo e serviços, movimentando mercados, lojas, oficinas, bares, restaurantes, imobiliárias, revendedoras de automóveis, etc. Sem a loja do empresário forasteiro, Santa Maria teria 150 empregos a menos. Sem a UFSM, seríamos uma cidade mais pobre, mais triste e mais burra.

*publicado no Diário de Santa Maria