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Tio Fausto

O artigo “Tio Fausto” é de autoria do repórter Rogério Marinho:

O casarão da Rua Maria Auxiliadora, no Tirol, ao lado do Estádio Juvenal Lamartine, era nosso ponto de encontro. Os primos, mais de 20, amigos, mais de uma centena, todos abrigados pela figura bondosa e compreensiva de tia Tânia e a irreverência de Tio Fausto. Ele tinha sempre uma brincadeira, uma tirada, seu espírito era gregário e contestador, gostava das pessoas e de viver cercados por elas, sempre disposto a escutar, às vezes seu silêncio intrigava, confundia. Quem tinha tanto a dizer, ouvia. Este era o segredo, ensinar pelo exemplo, pela justiça e por valores que vieram do seu berço de Areia Branca: família base e estrutura, parâmetro e referência de uma vida de realizações que orgulha todos os seus conterrâneos e amigos.

Em 30 de julho deste ano a luz de sua presença deixou de reluzir em nossa família, mas o seu legado permanece e o seu exemplo nos dá a dimensão de sua obra. O menino de Areia Branca tornou-se Ministro e Presidente da mais alta Corte trabalhista do País, sua atuação e sua sólida cultura humanística o distinguiram como um dos mais brilhantes e inovadores juízes de seu tempo.

É uníssono e unânime o reconhecimento da importância de tio Fausto para a Justiça do Trabalho. Como atesta o Professor Luiz Werneck Viana, do IUPERJ, existem dois períodos na justiça trabalhista: um antes de Francisco Fausto e outro depois.

Suas principais conquistas estão na participação decisiva para o fim da representação classista, no resgate dos cargos de juiz do tribunal para a carreira, na luta contra o trabalho escravo e infantil, no restabelecimento do diálogo com os magistrados, na defesa de um serviço público de qualidade.

A política sempre esteve presente em sua vida, desde a infância com o Pai e avô, líderes políticos em Areia Branca, na sua juventude em Mossoró e Natal testemunhando a atuação de Manuel Varela, Sílvio Pedrosa, Tarcísio Maia, os Rosado, Duarte filho, Raimundo Soares, Café Filho, Rafael Fernandes, Dinarte Mariz, Aluísio Alves e tantos outros que desfilaram no cenário político de nosso Estado e finalmente Djalma Marinho, seu sogro, que lhe disse a respeito das rivalidades mesquinhas que remanescem das lutas políticas circunstanciais; “não, não se apoderem dos meus inimigos; e não deixarei nenhum inimigo de herança”, até porque nos ensinava Tio Fausto; “ a luta é mais importante pelas intenções do que pelo resultado” .

Esse trato político é fruto da convivência e do trânsito que Fausto possuía nas rodas políticas do Estado. Desde muito novo conviveu e assistiu fatos e decisões políticas relevantes para o RN e para o Brasil. Em sua autobiografia “As areias brancas da memória”, descreve como poucos os causos e histórias da política potiguar, com sensibilidade e profundo senso de crítica e observação. Nessa mesma obra fica marcada a grandeza da sua intelectualidade. Uma escrita fluida, repleta de citações e menções às grandes obras e autores. Participou ativamente da nossa vida intelectual, conviveu com figuras de renome, como Zila Mamede, Newton Navarro e seu contemporâneo e amigo Diógenes da Cunha Lima.

Adeus tio você não passou em branco e sua marca permanece em todos nós familiares e amigos. Um homem que representou o seu tempo, que plantou árvores, cultivou amizades, e nos deixou um legado de valores calcados no exemplo de uma vida plena e produtiva. A ideia não morre. Ele permanecerá dentro de nós. Até breve.

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