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Da roça ao Ministério Público

Sempre alinhado, de paletó e gravata, e religiosamente pontual, além de extremamente cordial até com desconhecidos. É assim que Celso Jerônimo de Souza é visto no dia a dia como promotor de Justiça. Sereno, mas de postura firme, é dele a voz mais ouvida pelo chefe do Ministério Público do Acre antes de qualquer decisão. Quem o vê assim, não imagina os obstáculos que tiveram de ser superados e que transformaram o secretário-geral do MPAC num exemplo de vida.

Com 59 anos, ele veio de uma família de dez irmãos, dos quais, um morreu ainda criança, nascidos em Campo do Meio (MG), cidade hoje com pouco mais de 11 mil habitantes. A mãe nunca estudou, assim como o pai, que era lavrador. É o único com o diploma de ensino superior, uma recompensa por tantos anos em que precisava conciliar a vida na lavoura com os estudos, e depois, com qualquer trabalho que lhe garantisse uma renda para ajudar em casa.

O sustento vinha do trabalho pesado em terras arrendadas. Uma inundação causada pela represa de Furnas destruiu toda a plantação, e em 1959, a família mudou-se para outro estado. município de Conselheiro Mairinck, no Paraná, era a esperança de dias melhores. Mas não foi e novamente mudaram-se. Foram tentar a sorte em na cidade de Formosa do Oeste, e depois, em Marialva, no mesmo estado. Com tantas mudanças de domicílio, só aos nove anos Celso Jerônimo começou a estudar. Ali cursou apenas o primeiro ano. O pai, seu Joaquim Jerônimo, resolveu que tinham que voltar para Conselheiro Mairinck, ficando apenas os dois filhos maiores.

Talvez essa tenha sido a mudança mais drástica. Eram 248 quilômetros a serem percorridos, uma parte de trem, e a outra, de ônibus. Tudo o que a família tinha estava em duas malas, que foram perdidas durante a viagem. Quando, finalmente, a peregrinação havia acabado a vida estava impondo mais sacrifícios, e um deles, era morar em um casebre de chão batido, coberto de sapé e paredes de barro.

“É mais ou menos, guardadas as devidas proporções, como sair de Rio Branco, capital do Acre, e ir morar em Jordão. Meus irmãos sabiam que não teriam outra opção de trabalho a não ser a roça, então, ficaram em Marialva”, diz ele sobre a última mudança que fizeram para Conselheiro.

Com um pai habilidoso, que não era somente lavrador, eles estavam deixando para trás uma vida que exigia um pouco menos do que a roça, já que lá, seu Joaquim era pedreiro e carpinteiro. Seus irmãos estavam certos em ficar porque a vida no campo nunca foi fácil pra ninguém.

“É uma vida de incertezas, de depender do tempo. Quantas vezes, no domingo, eu tinha que ir pra roça porque havia a perspectiva de chuva. Milho colhido, amontoado e com chuva são ingredientes que acabam com toda a produção, um prejuízo que não tem como recuperar”, conta.

Mesmo sem qualquer exemplo em casa que mostrasse como a educação poderia transformar aquela realidade, Celso Jerônimo decidiu apostar nos estudos. Triunfou, mas mais uma vez não seria fácil. Precisou não ter vergonha de ir para a escola com os pés descalços, como também não deixar o cansaço ser mais forte.

“Até os dezoito anos não tinha energia elétrica em casa. Era lamparina a querosene. Eu estudei muito nessa escuridão, e acho que por isso, acabei tendo um problema de visão. Eu só podia estudar à noite porque de dia ia pra roça e meu pai só me dispensava quando estava no período de provas”, conta.

Mesmo com tanta persistência, ele foi forçado a desistir de estudar quando cursava a terceira série. Estava doente e não conseguia andar. Ficou um ano sem ir à escola, mas esse período era apenas uma pausa. Concluído o ensino fundamental, era hora de partir mais uma vez, já que ali não tinha a possibilidade de dar continuidade aos estudos. Pela primeira vez, iria morar sozinho.

Ele quis ser engenheiro agrônomo, e apesar da persistência que sempre o acompanhou, teve que deixar de lado esse sonho porque realizá-lo dependia de dinheiro. Almejou ser bancário no Banco do Brasil que era uma instituição considerada na época ‘boa para se trabalhar’, mas isso também ficou apenas no desejo.

Quis o destino, e assim aconteceu, que exercitasse diversas atividades, indo de bóia-fria, engraxate, servente de pedreiro, auxiliar de padeiro, e até professor.

“Um dia estava na sala de aula e o inspetor chegou e me chamou. Fui lá fora e ele disse que tinha uma proposta para me fazer e perguntou se eu queria ser professor na zona rural, até então eu só trabalhava na roça. Pensei: é a oportunidade da minha vida e disse que queria. Mas ele avisou: é longe, tem que ir a pé, dez quilômetros para ir, dez quilômetros para voltar”, relembra.

Por dois anos fez este percurso a pé até que conseguir comprar uma bicicleta usada, que na estrada de terra, vinha nas costas toda vez que chovia. Antes disso, contava com o apoio da irmã que lhe emprestava o ‘Gaúcho’. “Mas isso era raro porque eu tinha medo de cavalo, que era cego de um olho. Um dia eu caí desse cavalo, me sujei todo já na volta da escola. Lá vem eu todo sujo, chegando em casa”, conta.

Para fazer o ensino médio, Celso Jerônimo teve que se mudar, desta vez, sozinho, para Ibaiti, distante cerca de 30 km da cidade onde morava. Quando concluiu, tentou fazer a faculdade de Direito, mas não passou no vestibular. Então, foi ser estudante do curso de Ciências, e com a aprovação, tinha que viajar todos os dias para Jacarezinho, uma cidade universitária do Paraná, percorrendo diariamente cerca de 180 quilômetros, entre ia e volta.

“Meu sonho era passar num concurso. Queria um emprego que me desse a estabilidade que não tinha na iniciativa privada. Quando fui chamado para trabalhar estava me convalescendo de um acidente de carro”, diz ao relembrar o início de sua trajetória no Banco do Estado do Paraná, onde ingressou em 1985.

De dia, era o exaustivo trabalho no banco, e à noite, em outro município, a faculdade, só retornando pra casa de madrugada. Era nas tardes de sábado e no domingo que tinha tempo para se preparar para as provas. Apesar de todo o cansaço, não podia parar.

Mas desistiu antes de se formar. Como teve que ir para recuperação em Química, uma disciplina que sempre dominou muito bem, preferiu abandonar o curso ainda no terceiro período. A reprovação, que ele considerou como uma sentença de morte, foi também o que o impulsionou a fazer mais uma vez o vestibular para Direito. E passou, transformando o desapontamento numa possibilidade de, quem sabe, chegar ao Ministério Público.

Queria ser promotor, mas reprovou quatro vezes na prova oral

Celso Jerônimo entrou na faculdade de Direito com uma certeza: Não queria ser advogado. “Nada contra a profissão, mas não me identificava”, diz. Fez teste de aptidão profissional e viu que tinha perfil para ser promotor de Justiça. Hoje acredita plenamente que ‘ estava escrito nas estrelas’.

O primeiro concurso que prestou foi no Paraná em 1990. Relembra de ter ficado emocionado ao ver nos jornais, que guarda até hoje, seu nome na relação de candidatos. Foi bem nas provas objetiva e subjetiva, mas não teve o mesmo sucesso na prova oral. “Isso para mim foi uma decepção que não dá para descrever, mas também me encheu de energia porque eu estudava para fazer prova e não para fazer concurso”, relata.

Depois disso, foram mais três concursos para promotor: um em Rondônia e outras duas tentativas no Paraná, sempre frustradas na prova oral. Já casado, jamais pensou em sair do banco para se dedicar exclusivamente aos estudos. Não foram poucas as vezes em que chegava do trabalho e tomava pó de guaraná para passar a noite isolado num pequeno quarto, estudando até a hora de ir novamente trabalhar.

“As pessoas me perguntavam por que eu insistia naquilo e eu dizia que era o meu sonho de vida e eu só ia parar de insistir quando visse que realmente não tinha condições, mas por enquanto eu ia continuar estudando. Era o sonho da minha vida e eu não podia desistir”, conta.

Das noites em claro, os momentos em família renunciados, a partida de futebol cancelada, da tela do computador, porta do banheiro e do quarto sempre com a mesma frase: Ei de ser promotor de Justiça, passaram-se sete anos.

“Por várias vezes eu disse: Se Deus resolvesse me levar hoje eu tenho certeza absoluta que Ele não vai perguntar a mim se tenho alguma reclamação, algum protesto a fazer, porque se ele evidentemente ousar fazer esta pergunta eu vou dizer que eu morri infeliz por não ter tido a oportunidade de ser promotor de Justiça”, conta com a voz embargada e a felicidade de quem tomou posse no Ministério Público do Acre em 31 de janeiro de 1997, ano em que completaria 40 anos.

Era como escalar e chegar ao topo do Everest

O medo da prova oral e as notícias de que havia sido aprovado em outros concursos para os cargos de procurador do Banco Central, procurador do Banco do Paraná e agente fiscal do Paraná. Tudo isso ficou para trás quando o concurso aqui no Acre ainda estava em andamento.

“Quando saiu o primeiro resultado, então fui fazer o pedido de inscrição definitiva, e na Procuradoria Geral de Justiça fui atendido pela Mirtes. Quando protocolei o pedido ela perguntou como eu sabia que seria aprovado. Eu respondi, com muito cuidado para não ser arrogante, que havia me preparado, que aquele não era o meu primeiro concurso e que eu tinha convicção de que seria aprovado. Não esqueço desse comentário”, afirma.

Com 8.848 metros de altura, o Everest é a montanha mais alta do mundo. É dela que Celso Jerônimo lembra ao fazer um retrospecto de sua vida. “No dia em que fui aprovado, eu a Dra Alessandra (promotora Alessandra Marques), saímos e fomos até o antigo Mira Shopping. Ali choramos porque eram tantas dificuldades, era como escalar o Everest e conseguir chegar ao topo”, compara.

Em 1997, uma faixa fixada na rua principal de Ibaiti traduzia o orgulho e homenageava o mineiro, que fez história no Paraná, e que tinha ido tão longe até realizar o sonho de ser promotor de Justiça no Acre.

“Se você tem um sonho de verdade, você coloque ele como foco da sua vida. E quando eu digo foco é foco mesmo. Você não pode se preocupar com namorado, com marido, com filho…Então você tem que ter foco, dedicação, comprometimento, persistência, disciplina. Se você reunir esse conjunto de valores, de objetivo, de meta, de estímulos, eu não tenho dúvida que você vai alcançar seu objetivo. Não sou testemunha. Sou a experiência viva disso”, aconselha.

Duas décadas a serviço de um sonho

Como se tivesse iniciado ontem no primeiro emprego, é o primeiro a chegar, antes das 7h da manhã, e o último a sair. Na verdade, são dezenove anos que separam o dia da posse da rotina como secretário-geral do Ministério Público do Acre. No atual cargo é de sua responsabilidade a supervisão e direção dos órgãos de apoio técnico e administrativo.

Na Secretaria Geral, Dr Celso, como é chamado, é o chefe que obviamente cobra eficiência, e da mesma forma, que as servidoras que formam a sua equipe estejam maquiadas. Acredita que passar nem que seja um batonzinho melhora o astral da pessoa, e que isso, vai refletir na forma como ela atende o público.

“As pessoas quando vêm aqui, elas chegam com um problema, e quando encontram um ambiente mais parecendo ‘A Família Addms’ (filme do gênero humor negro), é evidente que isso já conta de forma negativa. Agora se ela encontra aqui um ambiente de paz, de alegria, de saúde, ela vai se sentir melhor acolhida”, diz.

As limitações que a pobreza lhe impuseram são lembranças que o acompanham, mas não trazem sofrimento, pelo contrário, se comparadas à realidade que hoje, são a prova da superação.

“Quando podíamos comprar uma lata de sardinha, tinha que dividir com uns dez e dava pra todo mundo comer, não havia reclamação. Eu sempre fui doido por doce, mas não dava pra comprar nenhum pirulito, então, o que a minha mãe fazia? Pegava um pouco de açúcar, apenas um pouquinho, e numa concha, ela colocava um pouquinho de água com açúcar e levava pro fogo. Depois colocava numa água fria para esfriar. Era aquilo era que matava minha vontade de comer doce”, revela.

Das recordações dolorosas da infância, uma lhe traumatizou: é a chuva com vento porque o faz lembrar do tempo em que as tempestades levavam o telhado de casa.

As boas lembranças são muitas, e entre elas, estão a medalha de aluno ‘número 1’, aprovação no vestibular e conclusão do curso de Direito, que pôde compartilhar com a mãe… o casamento, nascimento da filha, sua eleição como presidente da Associação do MP do Acre, dentre tantas outras conquistas dignas de um vencedor.

Criado por pais rígidos, foi castigado por muitas vezes, mas segundo conta, por motivos pequenos que hoje não renderiam esse tipo de punição. Revela que até a infância da única filha, Isabella, foi um pai à moda antiga. Pela esposa, Jussara, que conheceu quando tinha 20 anos e com quem está casado há mais de 30, demonstra os sentimentos mais nobres, entre eles, a gratidão por ter sido, durante todos esses anos, compreensiva com suas ausências, que segundo ele, ainda não acabaram.

Sobre o procurador-geral de Justiça Oswaldo D’Albuquerque, diz ser um gestor de visão, mas também o amigo, com quem esteve nos maiores embates dentro da instituição. “Ele realmente gosta de me ouvir, penso que é pela amizade, é a confiança. Eu já ouvi várias vezes dele que vale mais a confiança do que a capacidade, desde que aquele que detém a confiança corra atrás para ter essa capacidade”, revela.

Com os pais já falecidos, atualmente busca regularizar a casa em que moravam no interior do Paraná, adquirida no tempo em que a palavra empenhada valia mais do que o papel assinado. Agora que alcançou tudo o que quis, só tem mais um sonho: ser um bom promotor de Justiça.

Texto: Kelly Souza, do Ministério Público do Acre

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