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Je suis OAB e o ensaio sobre a cegueira

O artigo ‘Je suis OAB e o ensaio sobre a cegueira’ é de autoria de Rodrigo Badaro de Castro, advogado militante e Conselheiro Federal da OAB pelo Distrito Federal:

O entusiasmo do novo, o frenesi republicano e a esperançaadvinda da mudança foram arrefecidos pelas tragédias de 2019, uma página histórica banhada em lagrimas, muita lama e perda de jovens atletas. O palco de tanta tragédia concomitante ao estabelecimento das novas forças de poder, consagradas pela posse do legislativo e eleição de seus líderes, não ofuscou o nítido conflito entre poderes existentes. O executivo e judiciário em conflito evidente, a sociedade sitiada se abastecendo de uma mídia vigilante, mas ainda a meu ver, perdida no tiroteio institucional estabelecido.

Na famosa obra do prêmio Nobel de literatura português, Jose Saramago, o Ensaio sobre a Cegueira, o caos se estabelece e a razão some, ao mesmo passo que a luz turva ofusca sentindo tão importante, esvai-se também a sensatez. Nesse contexto nacional, na trincheira da guerra entre os poderes, à espera e na esperança de uma reforma política e econômica, alguns cegos tentam atirar na OAB, atacando-a de forma deturpada, por meio de seu Presidente Nacional recém-eleito. E nós advogados temos que gritar Je Suis OAB, fazendo coro a expressão criada por Joachim Roncin, em defesa aos ataques incrédulos a liberdade religiosa e de imprensa da revista Charlie Hebdo. Somos iguais, defendemos a liberdade!!!

A instituição OAB, lembrando uma ironia do grande Joao Mangabeira, não quer ter a gloria do caranguejo, que só figura no zodíaco porque mordeu o calcanhar de Hercules, mas tem a gloria por sua história, tendo defendido sempre os interesses da sociedade. Lembremos aqui, a luta incansável nos impedimentos de alguns de nossos presidentes acusados de corrupção ou crime de responsabilidade, a luta pela manutenção de direitos básicos previstos na Constituição, a luta vencida contra o financiamento eleitoral de pessoas jurídicas, que certamente criou o ambiente fértil para o nascimento da citada nova política e a renovação, entre outros tantos.

Na cegueira absoluta atiram na instituição, sem critérios eesquecendo-se que a defesa da liberdade de imprensa sempre foi um dos pilares da OAB, deixando ã margem a correta interpretação do cenário institucional, ou seja, nem governo, nem judiciário e nem a mídia serão capazes de calar os advogados. Não se cega advogado, não se cala advogado, lembrando que não somos apoiadores de corruptos, queremos um Brasil melhor, produtivo, rico e justo, mas não abdicamos de nossas prerrogativas para exercer a defesa de todos os cidadãos, não à toa somos a única profissão citada na Constituição Federal. As críticas pessoais e injustas, as generalizações e falsas notícias, tentam enfraquecer um grande crítico da sociedade civil no debate, que tem assento na defesa do estado democrático de direito.

Com efeito, passadas as eleições, e me sinto vencedor como eleitor, nos convoca para uma pauta propositiva, afastandoeventual cegueira apaixonada e com preconceitos, pensando no Brasil, e no quanto e importante a sociedade civil e a OAB. Os advogados defendem os bens mais valiosos, a liberdade, o patrimônio, a honra, aqueles genes, na melhor concepção trazida por Fustel de Colange em seu clássico A CidadeAntiga, que construíram a sociedade moderna, e ao diminuirmos estamos perdendo um aliado a luta incansável pela justiça.

Que venham projetos duros, que sejam condenados os corruptos, que haja desenvolvimento social e econômico, mas não seja o hiato da disputa equivocada entres os três poderes de Montesquieu, e o ímpeto do novo capaz de apequenar ou calar a OAB, pois nesse ensaio, diferentes dos olhos da justiça, os da nossa instituição não serão vedados.

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