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A morte de um ícone do futebol

O artigo “A morte de um ícone do futebol” é de autoria do desembargador Grijalbo Coutinho, do Tribunal Regional do Trabalho do Distrito Federal (TRT-DF) e ex-presidente da Anamatra:
Maradona foi embora aos 60 anos de idade!

Faleceu hoje, dia 25 de novembro de 2020, extraordinário gênio do futebol, um dos maiores senão o mais espetacular artista do velho esporte bretão de todos os tempos, autor de dribles mágicos, de jogadas inesperadas, de velocidade impressionante, de gols encantadores como são as verdadeiras obras de arte, feitas com pés, cabeça e mãos iluminados!

Embora não seja pouco para definir o refinado artista argentino, Maradona foi uma daquelas figuras irrequietas capazes de aumentar a expressão da beleza de cada um dos seus feitos em campos de futebol, ao não permanecer calado frente a iniquidades das mais variadas ordens!

Maradona transcendeu ao futebol!

Indicado pela grande imprensa como sujeito de decisões erráticas, muitas vezes condenado pelo veneno linguístico dos imbecis do conhecimento humano raso, Maradona, inegavelmente, cometeu equívocos no exercício de sua condição de atleta profissional, exasperou-se na vida particular, foi por demais ingênuo político no início de sua carreira de atleta pobre recrutado para o futebol na periferia!

O artista aposentado evoluiu e descobriu que o futebol é política em sua essência, é projeto de dominação, percebendo Maradona, por exemplo, salvo raras exceções, que os cartolas são os maiores inimigos do jogo limpo e têm os seus projetos afinados com os donos do poder político!

Com uma vida pessoal repleta de tragédias em sua trajetória curta de 60 anos de idade, jamais as escamoteou!

Por não esconder ou maquiar os seus erros, simbolizando, em alguma medida, as próprias tragédias históricas portenhas, Maradona é amado como nenhuma outra pessoa em sua Argentina, por torcedores de todos os clubes e por gente que não torce para qualquer time!

Ele não hesitou em assumir posições políticas corajosas nas três últimas décadas, ao desafiar os grupos econômicos majoritários do mundo inteiro, na perspectiva de eliminar ou reduzir as injustiças sociais desses tempos neoliberais, abraçando quem ele considerava merecer o seu abraço e solidariedade!

Maradona é a síntese das contradições humanas: um artista espetacular, inigualável, com posições políticas arrojadas, admirador do seu compatriota revolucionário Che Guevara, porém, cheio de equívocos ao longo de sua vida!

A diferença é que Maradona jamais tentou se apresentar diferentemente do que era a sua vida real!

Hipocrisia e bom mocismo não combinavam com o canhoto mais genial do futebol de todos os tempos!

Uma notável diferença entre Maradona e alguns outros humanos consiste no fato de que o canhoto mais famoso do mundo jamais ocultou os seus “pecados”!

Eles sempre estiveram vivos para quem se interessasse em desqualificar o ícone ou apenas estudá-los de maneira crítica!

Maradona definitivamente, faz parte da história do mundo!

E não apenas da história do mundo chamado futebol!

A exemplo de Mohammad Ali, o Cassius Clay, e de Lewis Hamilton, este último o atual piloto campeão de Fómula 1 que denuncia reiteradamente o racismo estrutural na sociedade mundial, Diego Armando Maradona parecia ter a clareza de que os atletas e os artistas possuem relevante papel para dizimar discriminações e injustiças sociais das mais variadas matizes!

E um atleta somente se torna artista quando, além de encantar no seu ofício profissional, faz de sua arte um instrumento propício a melhorar o mundo, o mundo das gigantescas desigualdades sociais!

Fenece a vida material do ícone do futebol mundial e do militante político comprometido com direitos humanos das minorias políticas!

Maradona, contudo, é imortal!

Os seus dribles desconcertantes, os seus gols épicos, a sua inquietude, o seu destemor político, a sua franqueza, a sua ausência de humildade futebolística, o seu desafio aos cartolas, os seus defeitos jamais escamoteados e as suas virtudes humanas, todo esse conjunto de ações e pinturas, relembre-se, compõe, a partir de 25 novembro de 2020, a galeria do eterno, do clássico, do belo que não precisa de conceito para agradar, daquilo que nunca morre nas mentes e nos corações apaixonados pela obra de arte revolucionária!

Maradona se juntará aos seus compatriotas Perón, Gardel, Borges e à Evita, no panteão daqueles imortais amados por boa parte da nação Argentina!

Descanse em paz, Dieguito, figura que muito fará falta a esse mundo pintado de uma falsa harmonia e tranquilidade, cuja sua pintura imortal tentou tirar o véu da embromação e assim descortinar para sempre a hipocrisia da perfeição moldada pelo padrão dominante!

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