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Ellery, cinco décadas de Direito

Um dos mais respeitados advogados de Brasília, o potiguar Antonio Henrique de Carvalho Ellery completou agora em dezembro 50 anos de formado na Universidade Federal de Pernambuco. É subprocurador-geral do Trabalho aposentado e um dos fundadores da ANPT (Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho). O cantor Alceu Valença e o ex-procurador-geral da República Geraldo Brindeiro foram seus colegas de sala na faculdade de Direito. Ellery apenas nasceu em Natal. Com poucos dias de nascido seus pais deixaram a capital potiguar e se mudaram para o Rio de Janeiro.

Eram cinco filhos e a família foi morar no bairro de Madureira. Seu pai estudava no Instituto Militar de Engerraria -IME, na Praia Vermelha. Com isso, diariamente, seu pai pegava o trem em Madureira, ia até a estação da Central do Brasil e de lá pegava um ônibus até à praia Vermelha. Foram cinco anos de curso.
Terminado o curso os pais de Ellery rodaram o país. Moraram em várias capitais. Na capital mineira, por exemplo, Ellery estudou o ginasial no Colégio Militar de Belo Horizonte. Um de seus colegas de turma era o atual ministro da Fazenda, Paulo Guedes.
A família de Ellery residiu ainda em Recife onde ele cursou a faculdade de direito da Universidade Federal de Pernambuco. Dois de seus colegas de turma ficaram conhecidos nacionalmente: Alceu Valença e Geraldo Brindeiro. Até hoje, apesar de residir há muitos anos em Brasília, Ellery mantém a sua inscrição na Seccional de Pernambuco da OAB (OAB-PE 4118)

Recentemente, Ellery foi homenageado com a outorga do título de Cidadão Honorário do Recife. Segue a íntegra do seu discurso de agradecimento:

“Não nasci aqui. Acho que por uma brincadeira do destino, pois se me tivesse sido dado o direito de escolha, somente aqui, e em nenhum outro lugar, teria vindo ao mundo. As constantes transferências do meu pai, militar, fizeram com que cada filho nascesse em uma cidade diferente e eu não escapei à regra. 

Mas aqui me criei, cresci, estudei, fiz-me homem. Nesta terra que amo acima de tudo, finquei minhas raízes, moldei meu caráter, preparei meu futuro. E acreditem, amigos, viver no Recife, viver o Recife, foi a melhor coisa que poderia me acontecer.

Posso lhes dizer, com a mais absoluta certeza, que este é um dos momentos mais emocionantes de minha vida. Porque recebo agora a cidadania de cuja falta sem tanto me ressenti. Sinto hoje que me é feita justiça. Não por qualquer mérito pessoal; longe de mim tal pretensão. Quando digo que me é feita justiça é pelo fato de me julgar merecedor desse título, única e exclusivamente pelo extremo amor que nutro por esta cidade que me adotou.

Não quero parecer vaidoso, mas como ninguém melhor que eu pode avaliar a dimensão dos meus próprios sentimentos, quero quer – e ouso mesmo dizer – que dificilmente alguém a quem tenha sido concedido o título de cidadão recifense jamais tenha experimentado a emoção que sinto agora, ou se sentido tão honrado e orgulhoso como eu, neste momento.

Este título não representa para mim apenas um galardão que se ostenta, mas o atestado de uma cidadania que por toda a vida ansiei por possuir.

Porque o Recife sabe seduzir. E já que não posso servi-lo o quanto devo, que possa amá-lo enquanto posso.

No sábio dizer do mestre de Apipucos, o saudoso Gilberto Freyre, é “o Recife conquistador de não-recifenses. E essa conquista de não recifenses pelo Recife tem ocorrido com bispos e arcebispos – gente de fora – com generais, almirantes, brigadeiros, gerentes de banco. Até mesmo com missionários protestantes de quem o Recife só tem faltado fazer devotos de Nossa Senhora do Carmo. Também gerentes de filiais de empresas paulistas, de organizações americanas, de companhias europeias; e até com cônsules. Cônsules que, uma vez no Recife, têm desejado aqui permanecer pelo resto da vida, como que deixando de ser carreira, para serem fixos. Fixos no Recife”.

Fixos como o meu tetravô Henry Ellery, diplomata inglês, nascido em Liverpool, que chegou ao Recife em 1701 para assumir o consulado britânico, e aqui ficou até 1753, quando, a contragosto, foi transferido para Fortaleza, onde veio a falecer, seus filhos, no entanto, cumpriram o seu último desejo, que era o de voltar para o Recife. O velho cônsul foi sepultado no Cemitério dos Ingleses. Ficou fixo no Recife, como tanto queria – ainda que já morto – mas para sempre. Deixou-me como herança essa paixão pelo Recife.

Dentre os muitos casos o Mestre Freyre desfia, está o do sueco Hermann Lundgren, que “estabeleceu-se comoship chandler na Lingueta para nunca mais querer saber das névoas da Suécia: só de sol do Recife – quando muito, de Pernambuco ou do Nordeste. E como amor se paga com amor, o Recife fez de Hermann milionário”.

O mesmo já ocorrera com o inglês Gibson, capitão de navio. Ele “engraçou-se” de tal modo do Recife que, ao retirar-se da atividade marítima, “tornou-se inglês d’água doce, ancorado no Recife”. Construiu um palacete entre mangueiras e jaqueiras, enraizou-se e, com verdadeiro amor, constituiu família na terra recifense.

O Recife, no dizer de Freyre, “é uma cidade-sereia: tem encantos anfíbios a que muita gente de fora vem sucumbindo. Encantos de suas águas de mar a que se juntam as águas dos rios. Ou a de açudes quase lagos tropicalmente suíços como o de Apipucos.

Encantos também de suas frutas: dos seus cajus, de suas mangas, dos seus sapotis, dos seus abacates. Encantos das suas areias de praia e das sombras das suas árvores”.

Fosse eu um poeta, faria uma ode a esta cidade singular que fascina homens de outras cidades e de outras terras, de outros países, de outros climas, fazendo-os inteiramente seus. O Recife está na melhor literatura poética do Brasil. Está em poemas de Gonçalves Dias, de Augusto dos Anjos, de Manuel Bandeira, de Mauro Motta, de João Cabral de Mello Neto, de Joaquim Cardoso, de Lêdo Ivo, de Aldemar Tavares – o das trovas – de Olegário Mariano – o das cigarras, e de tantos outros que, como eu, renderam-se ao seu fascínio e expressaram em versos os seus encantos.

Mas nada melo do que as palavras do poeta AldemarTavares, em sua “Dedicatória ao Recife”, para expressar a falta que sinto daqui:

“Pátria do meu Amor! Recife linda!

Como te guarda o meu saudoso olhar!”

Nesta cidade valente e guerreira, pioneira das revoluções libertárias, aprendi a dar valor ao sentido de pátria e de liberdade. Nas páginas de sua história tão cheia de heróis, entendi o sentido da unidade nacional, da luta contra a opressão.

Lembro da minha infância e juventude, das minhas passagens pela Avenida Cruz de Cabugá e pela praça General Carlos Pinho. Lembro das serestas, dos bailes e do corso do carnaval. Lembro dos mocambos e dos sobrados, dos manguezais e dos humildes pescadores dos caranguejos que ainda hoje deliciam moradores e turista nos bares de Boa Viagem e de Olinda. Lembro das águas tépidas do Atlântico, e do prazer de flutuar nas piscinas. Lembro dos pregões; do homem do cuscus; do outro que vendia jabuticabas, que chamava de “uva sertaneja”. Lembro do sorvete do Gemba, precursor dos tantos que existem hoje, embora nenhum a ele se iguale.

Lembranças indeléveis, impregnadas em minha memória. Mas que transformaram meu passado em presente, eis que no exílio voluntário em que vivo é dessas lembranças que me alimento.

Como Gonçalves Dias, em sua “Canção do Exílio”, espero que “não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá”. Cumprida a tarefa a que me impus, no distante Planalto Central, quero um dia, como filho pródigo, voltar a esta “pátria do meu amor, Recife linda” para aqui dar o meu último suspiro.

Gostaria de aproveitar este momento para expressar a minha enorme gratidão ao autor da proposta, o digno Vereador Bruno Rodrigues, novo Deputado Estadual, eleito para o bem do Recife e do Estado, para a próxima legislatura.

Ao ilustre Presidente e a todos os integrantes desta nobre Casa Legislativa, o meu muito obrigado por terem me proporcionado estes momentos de alegria e emoção tão intensas.

A todos deixo bem claro: a terra que não me viu nascer, vai me ver morrer. E que minhas cinzas sejam espalhadas, com reverência, “onde o Capibaribe e o Beberibe se juntam, para formar o Oceano Atlântico”.

Para encerrar, faço minhas as palavras do poeta Olímpio Bonald Neto:

“Adeus Recife, que eu vou embora

Teu namorado pela vida afora…”

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