A arte brasileira despede-se de um de seus mais originais e poéticos criadores. O pintor, desenhista, gravador e serigrafista capixaba João Henrique Cúrcio Allemand faleceu hoje, 9 de julho de 2026, vítima de pneumonia, em sua terra natal, o municipio de Muqui (ES). O artista era tio do jurista Luiz Cláudio Allemand, filiado à Associação Brasileira de Advocacia Tributária (ABAT) e membro do Comitê de Tribunais Superiores da ABAT. Mestre em Direito Tributário pela UCAM-RJ. Ex-conselheiro do CNJ, representante da OAB Federal no Conselho da Justiça Federal , presidente da Câmara de Arbitragem da Federação das Indústrias do Espírito Santo e diretor jurídico da Fiesp.
Nascido no interior do Espírito Santo no ano de 1935, João Henrique começou a estudar pintura aos doze anos de idade. Constantemente enquadrado por críticos como um expoente da arte naïf , ele próprio costumava pontuar com brilhantismo e lucidez: “Minha pintura é naïf, eu não”. De fato, sua obra foi muito além de qualquer rótulo de ingenuidade, utilizando-se da estética primitivista para estampar temas contemporâneos, vanguardistas e debater a diversidade e o universo queer de forma pioneira.
Conhecido carinhosamente como “O Homem Verde”, João Henrique construiu um universo imagético inconfundível, em que recriava uma natureza idealizada, frequentemente comparada ao Éden. Suas telas capturaram de forma inigualável o bucolismo do interior e as paisagens litorâneas, sendo tomadas por verdes de todas as nuances e azuis plácidos que marcavam o céu e o mar.
Durante as décadas de 1950 a 1970, o artista fez sua transição para o Rio de Janeiro, epicentro da efervescência cultural do país na época. Nesse período, conviveu intimamente e construiu laços profundos com gigantes da intelectualidade brasileira, aprendendo e amadurecendo ao lado de nomes como Carlos Scliar, Roberto Burle Marx, Vinícius de Moraes, Rubem Braga e Cândido Portinari.
Sua sensibilidade arrebatou figuras centrais da literatura mundial. A escritora Clarice Lispector eternizou sua amizade em uma crônica, declarando: “Quase me esqueci de João Henrique, que tem cor de verde e que me deu a dama da noite para perfumar minhas noites”. O fascínio por sua obra também atraiu o Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez, que fez questão de visitá-lo pessoalmente para adquirir três de suas pinturas.
A partir de 2002, João Henrique escolheu voltar às suas raízes, instalando-se novamente em sua cidade natal, Muqui. Ali, vivendo em um sobrado cujo segundo andar lhe servia de ateliê, sua paleta ganhou novos contornos e uma profusão de cores ainda maior, inspirada no colorido do casario histórico e nas figuras dos palhaços das Folias de Reis. Defensor do patrimônio imaterial e da cultura popular de sua região, o artista continuou a pintar ativamente por alguns anos, mantendo-se fiel à sua promessa de nunca fazer concessões na sua arte.
Autodidata, obstinado e genial, João Henrique Cúrcio Allemand deixa um acervo monumental que rompeu as fronteiras do país. Suas obras, que traduzem uma visão pacífica e luminosa do Brasil, integram hoje o acervo de museus como o MASP e propriedades particulares espalhadas pelo mundo, com exposições consagradas em países como Portugal, Inglaterra, Itália, Nova Zelândia e China.
O falecimento de João Henrique deixa uma lacuna imensurável na cultura capixaba e nacional, mas suas tramas delicadíssimas continuarão vivas, mantendo abertas as janelas para o seu extraordinário universo verde.

