Direito Global
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O legado de JK

“Lutei dia e noite para dar nova dimensão ao nosso País.

Quis que, da minha administração, não se pudesse dizer,

sem pecar contra a verdade, que o Brasil crescia

nas horas noturnas, enquanto o Governo dormia. Não!

O Governo não dormiu, em minhas mãos.”

Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

Silvestre Gorgulho (*)

Em 526 anos de Brasil, há datas a celebrar e há datas para esquecer. Felizmente, as datas para celebrar são maioria.  Duas delas, por exemplo, moldaram este País. Foram mais significativas e funcionaramcomo um divisor de águas do Brasil como Nação. Ambas as datas, separadas por 148 anos, aconteceram no mês de janeiro. A chegada da família real ao Brasil, em 22 de janeiro de 1808, e a posse de Juscelino Kubitschek de Oliveira, na Presidência da República, em 31 de janeiro de 1956.

 A vinda da corte portuguesa para o Brasil foi uma manobra do príncipe regente, D. João, para garantir que Portugal continuasse independente, quando ameaçado de invasão por Napoleão Bonaparte. Deixando de ser colônia, o país é elevado à condição de “Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves”. Assim, a monarquia portuguesa, continuou formalmente representada no Congresso de Viena, Áustria, onde se reorganizou o mapa político da Europa, após a derrota de Napoleão. O novo status deu ao Brasil uma série de transformações geopolíticas. Além de ser decisivo para manter a unificação e grandiosidade do território nacional, o país inteiro incorporou a Língua Portuguesa e teve ganhos concretos como a abertura dos portos para as nações amigas e a criação de entidades essenciais: Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Real Fábrica de Pólvora, Imprensa Oficial e Banco do Brasil.

O segundo divisor de águas veio em 31 de janeiro de 1956, 134 anos depois da Independência. Aposse do ex-governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek de Oliveira, na Presidência da República, é a segunda data que transformou o Brasil em todas as dimensões: cultural, industrial, econômica e política.

Não foi fácil a chegada de JK ao Palácio do Catete. Ainda governador de Minas, Juscelino deixou claro sua intenção de disputar a Presidência da República pelo PSD.

Houve muitas tratativas de lideranças nacionais e até de militares para demover JK de sua intenção. O próprio presidente da República, Café Filho (vice de Getúlio Vargas) e o governador de Pernambuco, Etelvino Lins, se articularam para evitar a candidatura de JK.

Pior: até seu padrinho político, o ex-governador de Minas, Benedito Valadares, temeroso de que o crescimento de JK lhe roubasse influência no Estado, não mediu esforços, nos bastidores, contra sua candidatura.

Em dezembro de 1954, militares de alta patente levaram ao então presidente Café Filho um documento em defesa da candidatura única à Presidência. Sem JK, evidentemente.

O presidente Café Filho – que tomou a iniciativa de ler o texto no programa ‘A Voz do Brasil’, ainda procurou demover JK, com o argumento de que as Forças Armadas não aprovavam a sua pretensão.

JK começou a ganhar a eleição ali. Não se deixando intimidar, confirmou sua candidatura e mandou um recado curto e grosso para o presidente Café Filho. Sua frase virou seu lema de vida: “DEUS POUPOU-ME O SENTIMENTO DO MEDO”.

E foi com essa coragem cívica que JK plantou sua candidatura em 10 de fevereiro de 1955, para colher nas urnas, em 3 de outubro, 3.077.411 votos, ou 36% do total.

JK virou o maior e mais importante Presidente da República na História deste País.

O TRÁGICO ANO DE 1976

O ano de 1976 foi de guerra e de muita violência contra os direitos humanos. No Brasil e no mundo. Mas foi marcado, também, por mudanças profundas na ordem mundial e avanços na tecnologia, com o casamento da informática com a eletrônica.  Na China, morre o líder Mao Tsé Tung e, no Brasil, morre um dos maiores estadistas que este País produziu: o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Em 1978, Oscar Niemeyer lança na Europa o livro “Minha Experiência em Brasília” e já prepara o lançamento de outro: “A Forma na Arquitetura”. Os conflitos raciais matam e ferem na África do Sul. Jimmy Carter assume a Presidência dos Estados Unidos com a bandeira dos direitos humanos. Nos Estados Unidos, Bill Gates e Paul Allen popularizam os microcomputadores e a Microsoft ganha o mercado mundial. Steve Jobs e Steve Wozniak terminam o projeto do micro Apple I. Os computadores começam a ser vendidos em grande escala. Éder Jofre encerra uma carreira brilhante com 81 lutas, 77 vitórias, 2 empates e 2 derrotas. O Brasil tem 11 milhões e 603 mil aparelhos de televisão. O Concorde faz seu primeiro voo comercial. É inaugurada a montadora FIAT, em Betim, com as presenças do governador Aureliano Chaves, o presidente Ernesto Geisel e o empresário italiano Giovanni Agnelli. Na temporada de 1976, Pelé faz 43 jogos pelo Cosmos. Se levar em conta toda a sua carreira profissional, que começou em 7 de setembro de 1956, ganhando pelo Santos a Taça Independência, Pelé chega ao gol 1.259 em 1.325 partidas disputadas.

O presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, então com 74 anos, havia deixado a Presidência da República há 15 anos, mas era ainda a figura mais carismática entre os políticos brasileiros. De janeiro a dezembro, ocupava todos os espaços culturais e políticos do País.

Antes de 22 de agosto, era uma personalidade aclamada em todos os eventos que participava. Depois de 22 de agosto, sua ausência física é suprimida pela presença constante das lembranças de um político construtor de sonhos e de um presidente da República que enfrentou todas as adversidades para concluir as 30 metas, aliás 31 – com a sua meta síntese, a construção de Brasília – prometidas na sua campanha.

Na segunda-feira, 23 de agosto de 1976, logo pela manhã, chega à capital o corpo de JK. Brasília vai para a rua. Os brasilienses pegam o caixão com o corpo de JK no aeroporto, seguem para a catedral e o levam até o cemitério. Nenhum palácio que JK construíra se propõe a abrigá-lo para as despedidas. Nem do Executivo, nem do Legislativo e nem do Judiciário. Quem abrigou JK foi a alma brasiliense. A saudade e as lágrimas marcam a manhã, a tarde e a noite. Brasília prende a respiração. O clima é de revolta, solitude, exaltação, glorificação e orfandade. Perdeu-se um herói. O velório e a despedida de JK fazem Brasília criar alma. “Somos orgulhosos de nossa história e de nossos ídolos.” Em pleno regime militar, Brasília assiste à maior manifestação popular de seus 16 anos. Pela primeira vez o povo ocupa as ruas por 15 horas. Brasília se reinaugura. Os brasilienses se explodem em emoções e lágrimas para reverenciar o Fundador – presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Nesse dia, sou testemunha de dois gestos inusitados. Primeiro, quando o povo tirou o esquife de JK do caminhão do Corpo de Bombeiros para levá-lo nos braços pela Esplanada e pela W3 até chegar ao Campo da Esperança. Cantando o “Peixe Vivo”.

“A Minh‘alma chorou tanto, que de pranto está vazia desde que aqui fiquei, sem a sua companhia / Não há pranto sem saudade, nem amor sem alegria / É por isso que eu reclamo essa tua companhia / Como pode um peixe vivo viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua companhia?”

O segundo foi dentro do cemitério. Acompanhei todo o trajeto e vi, na beirada do túmulo, um dos gestos mais emocionantes de minha vida. Era quase meia-noite. Luz, só dos refletores das tevês. Uma multidão se empurra para chegar mais próximo à cova. Mais de 50 policiais se dão as mãos, formando uma grande roda para cercar o túmulo de JK. O objetivo era evitar tumulto. Acompanhei tudo de pertinho, sem conseguir passar pelos PMs. Dado momento, a surpresa. Um PM larga as mãos dos colegas, dá um passo à frente e começa a falar. Soluça muito. Segura o choro e, num breve discurso, exalta “o presidente JK que trouxe meu pai para construir esta cidade. Eu vim junto com meu pai. JK será eterno porque mudou minha família, mudou o Brasil e eu tenho que agradecer aqui o meu amado presidente. Custe o que custar!” Não preciso dizer da emoção daqueles que estavam ali pertinho e testemunharam esse depoimento. Saí do cemitério à uma hora da manhã. Cansado e triste. Fui dormir com apenas um copo de leite. Mas me alimentei das palavras, da coragem e do destemor daquele soldado da PM.

O ano de 1976 parece ter terminado em 26 de agosto, quando o então o presidente da Câmara, deputado Célio Borja, anuncia o discurso de despedida proferido pelo deputado Tancredo Neves (PSD- -MG). Foi um pronunciamento histórico em homenagem a JK.

 “A morte do ex-presidente uniu o País pela dor. Houve em cada lar uma prece, em cada alma uma lágrima e em cada coração um voto de pesar e de saudade. É que, em sua magnanimidade, JK nunca partilhou o ódio, mas sempre distribuiu o amor”.

Mais forte, ainda, foram as palavras de seu grande opositor político, ex-governador do Rio de Janeiro e ex-presidente da UDN, Carlos Lacerda:

“Celebram JK por ter feito Brasília. Mas há que celebrá-lo ainda mais por ter demonstrado aos brasileiros que a democracia é possível. E, desde que possível, indispensável.

Silvestre Gorgulho Jornalista e foi Secretário de Estado de Comunicação de Brasília governo José Aparecido de Oliveira (1985-1988). Secretário de Imprensa da Presidência da República, governo José Sarney (1988-1989). Secretário de Estado da Cultura de Brasília (2007-2010). Autor dos livros: De Casaca e Chuteiras JKBrasília-Pelé, Era dos grandes dribles na Política, Cultura e História. Luau de Mim, poesias. A Flor do Cerrado Torre Digital de Brasília homenagem a Brasilia e aOscar Niemeyer. Água, Gestão e Valores,Aspéctos Institucionais e Instrumentos de Gestãoe Usos Múltiplos da Água.