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O dia do dia

Por José Roberto Lopes Padilha, ex-ponta- esquerda do Fluminense, Flamengo e Santa Cruz –

Semana passada, ou foi a retrasada, foi comemorado o Dia do Amigo. E lembro da pandemia, quando perdemos vários deles. Carros de som nas ruas divulgando notas de falecimento, capelas mortuárias vazias de presenças proibidas, porém congestionadas de sofrimento.

Desde esse triste episódio, em que fui poupado e poupei os meus, agradeço todas as manhãs um presente quase imperceptível, pouco alardeado ou conhecido como o Dia dos Pais, a Páscoa, o Natal. Uma oportunidade de abrir um embrulho, a céu aberto, na porta de onde residimos, tirar o laço da fechadura e celebrar o Dia do Dia.

Uma oportunidade renovada de caprichar na alimentação, beber socialmente, não fumar de jeito nenhum e caminhar por 40 minutos todo santo dia para merecer comemorar o dia de mais um dia.

Um diário com folhas em branco que você irá preencher à caneta com suas escolhas e, mais tarde, comemorar ou se arrepender por uma delas.

O Dia do Dia precisa ser entendido na busca das ações do bem, coisas simples como respeitar os pedestres na faixa, dar bom dia ao porteiro do seu prédio e buscar conhecimento para que o debate, e não as discussões, nos faça pessoas respeitadas mesmo em uma acalorada roda de amigos no Bar do Jair.

Nem sempre meus dias foram assim. Em um deles, acordei carregado de ressentimentos com o então presidente da empresa em que trabalhava: o Fluminense F.C. Depois de sete anos galgando um lugar mais efetivo no time, ele, sem nos consultar, nos trocou por um jogador, Doval, do Flamengo.

Fiquei irado. Não pelo que iria encontrar pela frente, mas pelo que estava deixando para trás. E não o perdoei, descarregando em meu primeiro livro, “Futebol: a dor de uma paixão”, uma série de insinuações, dentre elas a de estar se promovendo visando sua candidatura a Deputado Estadual.

E nunca mais nos vimos. Alguns anos depois, nos reencontramos na solenidade de entrega do Prêmio João Saldanha de Jornalismo Esportivo. Eu concorria, ele era o mestre de cerimônias. Ao me reconhecer, usou sua fala para nos elogiar como seu ponta-esquerda e, agora, escritor.

Vaidoso, não iria ao seu encontro se não fosse a gratidão que minha esposa teve por ele, mesmo porque eu era um raro jogador em meio a um ninho de jornalistas. Seu discurso me igualou. E ela promoveu o encontro.

Horta disse que ambos estávamos certos. Eu, tricolor, por sair do time de coração sem ser consultado. E ele porque precisava acabar de pagar o passe de Rivelino ao Corinthians. Com os troca-trocas que promoveu, desmanchou a Máquina Tricolor e reforçou todos os times. E 1976 foi, e será para sempre, o recordista de renda do futebol carioca.

Para se ter uma ideia, Flamengo x Vasco, na terceira rodada, levou 174.440 torcedores ao Maracanã. Seu quarto maior público na história. Ele pagou o Rivelino e ainda foi bicampeão carioca. Para meu azar, com um gol do Doval.

Naquele dia, em 1976, devo ter acordado de mal com o dia, procurei culpados, descarreguei ressentimentos que nada me enobreceram. Pelo contrário, herdei rusgas, cultivei rugas. E vocês mal acreditam como estava bonita a pele e a alma do meu ex-presidente.

Agora que boa parte do bom senso se infiltrou na minha horta, adubada com objetivos mais nobres, como o perdão e a compreensão até com todo aquele que pensa diferente, tenho saído de casa tão desarmado que quase peguei um santinho adversário. Seu candidato vestia verde e amarelo e a Copa do Mundo tinha acabado.

Eu disse quase. Estou melhor, amo cada vez que cumpro corretamente o meu dia, mas não estou…

Melhor deixar passar esse dia.