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Ernani Buchmann : A hermenêutica

​​O artigo A hermenêutica é de autoria advogado, jornalista e presidente da Academia Paranaense de Letras, Ernani Buchmann:
Um amigo resolveu se separar da namorada, jovem psicoterapeuta com quem vivia há alguns meses. Hilária foi a justificativa: alegou estar com inconcordância afetiva. Não só em relação a ela, mas também com todas as pessoas, espécie de misantropia geral. Seu sonho era viver como eremita em uma cabana nas montanhas, com um bacamarte nas mãos para atirar em que se aproximasse. Ela matriculou-se em um curso de hermenêutica para tentar entender o processo, já que à luz dos estudos lacanianos a desculpa não se sustentava.
O Brasil deve um oceano de agradecimentos à hermenêutica. A ciência da interpretação nos leva nos ombros desde a carta de Pero Vaz de Caminha pedindo o perdão real para seu genro, então degredado. Ele apenas usou do pistolão, essa arma nacional capaz de destravar qualquer barreira. Interpretou-se que era um pedido disfarçado de emprego. Nesse fato estão os princípios basilares da interpretação à brasileira.
Tomemos o VAR, vilão dos jogos de futebol. Foi criado para acabar com as interpretações dos árbitros, sempre discordantes dos fatos. Pois o VAR virou a casa da Mãe Joana, simples senhora que não tinha por hábito arrumar sua residência. As decisões que a tecnologia gera são verdadeiros paus de galinheiro, sujas como D. Joana nunca imaginou.
Na tal cabine do VAR postam-se um interpretador-chefe das imagens e três interpretantes-auxiliares. Com os quatro árbitros em campo, temos oito pessoas para decidir – eu iria dizer tramar, mas me contive – e a limpidez das imagens. Pois decidem como querem, interpretam a favor de um determinado time (a propósito, com sede na Gávea, Rio de Janeiro) com a maior desfaçatez.
Tudo no país depende de interpretação. É verdade que as leis a exigem (chama-se regulamentação), sem a qual não podem entrar em vigor. Ou seja, de cara já temos a obrigatoriedade de gerar “embargos de declaração” para esclarecer a norma originária.
Há quem diga que o Brasil não é um país sério. Brasília nos desmente. Na capital federal todos são circunspectos, senhores de togas e capas respeitáveis, a trazer com elas séculos de conspicuidade.
Pois em meio a um “eminente magistrado”, uma vênia aqui ou outra, inobstante tudo isso, o Supremo Tribunal Federal, depois de horas de discussões em público e confabulações privadas – desculpe o termo tão chulo, mas aqui me parece bastante apropriado – deu-se 90 dias para interpretar o que foi (ou não, no caso) foi decidido.
A Ministra Carmen Lúcia tem razão, posto que sua fala não precisou de interpretações. O brasileiro sério ficou com vontade de meter o dedo na cara dos levianos ministros envolvidos nos escândalos do Banco Master, ou seja, a metade do Excelsior Pretório – ah, essa linguagem jurídica! – para lembrar de nomes respeitáveis, aqueles sim, como Sepúlveda Pertence, Carlos Velloso, Francisco Rezek, Nelson Jobim, Eros Grau e outros tantos que honraram a toga que vestiram.
Bons tempos aqueles! Epa, foram bons mesmo ou será preciso chamar a D. Hermenêutica outra vez?