Direito Global
Sem a toga

O copo e a dentadura

Uma história do antigo Comitê de Imprensa do Palácio do Planalto. Naquela época o Comitê ficava no terceiro andar, mesmo andar do gabinete do presidente da República. Atualmente, o Comitê fica no térreo:

Em uma pequena parte contígua ao comitê ficava uma antiga geladeira que nos atendia vez em quando com água gelada. Ela, além de não gelar satisfatoriamente, tinha um problema de vedação na borracha da porta que fazia com que o gelo acumulado na portinhola do freezer acima, ficasse pingando o tempo todo. Não existiam copos descartáveis.

Os jornalistas mais antigos ali credenciados tinham uma mordomia: copos de vidro, tipo de requeijão, com etiquetas com os nomes. Eles eram guardados na prateleira interna da porta. A ideia era mantê-los gelados, tarefa impossível devido a falta de vedação total da porta. Assim, os copos ficavam ali e os pingos decorrentes do degelo da parte superior do freezer iam caindo dentro deles, enchendo alguns e deixando outros pela metade. Essa água era jogada fora pelo dono do copo.

Certo dia de agosto, mês dos mais secos em Brasília, calor bravo, início da tarde, a repórter de O Liberal, que cobria Congresso e Planalto, após atravessar a Praça dos Três Poderes, chegou esfalfada no comitê. Logo ao entrar abriu a geladeira. Nem uma garrafa d’água, como de costume. Ela não teve dúvida, pegou um dos copos contendo água do respingo e começou a beber.

Vendo aquela “bola levantada”, não tive dúvidas: “Você está bebendo dessa água?” Ela continuou, pegando a metade de outro copo e começando a beber. Eu conclui: “Esses copos com essa água é onde os repórteres mais velhos daqui deixam a dentadura de molho após o expediente”. Ela deu um pulo, jogou o copo dentro da geladeira e saiu cuspindo para vomitar no banheiro. Eu, é claro, sumi da sala.(Emerson Sousa)

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