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A humanidade no cantinho do pensamento

O artigo “A humanidade no cantinho do pensamento” é de autoria do jornalista João Marcelo Erthal:

Estamos todos em casa, estamos bem até aqui. Se você pode pensar e dizer isso, parabéns. Muitos de nós – e é importante lembrar que nunca fomos tão “nós” – já foram alcançados pelos sintomas e pelas dores da COVID-19 ou de ter amigos e parentes internados. O que nos une é que estamos todos massacrados pelo futuro. Não é o home office, nem as tarefas domésticas, muito menos a falta da academia e do shopping. O que nos tortura é o que vem por aí. Incerteza imensa.

Somos um grande “nós” aprendendo coletivamente. Já devíamos ter aprendido algumas dessas lições, mas nunca é tarde. No Rio de Janeiro, recentemente, aprendemos que a água é importante. Uma obviedade indiscutível. Mas o peso dessa verdade só se materializou quando passamos a correr aos mercados para encontrar água mineral de qualquer marca, carregamos fardos prédio acima, no estilo “lata d’água na cabeça…” E pelo menos na minha casa acabou aquele hábito de encher o copo, beber metade e, o restinho ser desperdiçado. Pense na água como um vinho, beba com moderação. Modere seu lado irracional.

Vamos superar o Coronavírus. Vamos sofrer, penar, enlouquecer dentro de casa. Seremos capazes de cantar nas janelas como os italianos? Aposto que sim.Talvez possamos, mesmo evitando o vizinho no elevador, conhecer melhor nossa vizinhança, o militante de esquerda, o radical de direita, o pianista do prédio em frente, o fumante inveterado dois andares abaixo. O Coronavírus está nos obrigando a ficar. E a pensar.

Teremos saudade da casa da sogra, lembraremos que não vamos à casa da mãe, da avó. Daremos valor ao aboninável engarrafamento e, talvez, no primeiro deslocamento até o trabalho, a gente olhe para a beleza das portarias, de uma ou outra árvore que nunca havíamos notado porque a vida é corrida demais, estamos sempre ocupados demais e ganhar dinheiro é necessário demais. Demais – mais do que deveria ser, sabendo que o que realmente nos falta é o tempo e, agora, a liberdade de zanzar por aí.

Se ao fim disso tudo, quando a hibernação da COVID-19 finalmente nos deixar botar a cara na rua, você puder esquecer do álcool gel “uma vontade danada de beijar o português da padaria” ou qualquer estranho, como o gênio Zeca Baleiro, não estranhe. Você só se tornou um ser humano melhor.

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