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Trauma da derrota no Maracanazo

O artigo “Trauma da derrota no Maracanazo” é de autoria do advogado e torcedor do Vasco da Gama, Sérgio Batalha:

“Na próximo quinta-feira, dia 16 de julho, a derrota do Brasil na final da Copa de 1950 completará 70 anos. Embora a maioria de nossa população atual não fosse nascida à época, o trauma ecoou por gerações. Todos já ouviram falar sobre o otimismo desenfreado que teria provocado nossa derrota.

São inúmeras histórias, verdadeiras ou não, sobre as faixas de campeão sob a camisa dos jogadores brasileiros, sobre discursos inflamados de políticos na véspera e no dia do jogo, sobre as manchetes de jornais. Tudo empurrando um excelente time para ignorar um fato básico no futebol, o de que os resultados são imprevisíveis e as surpresas são comuns. Houve ainda um menosprezo a um bom time, que entrou em campo determinado a ganhar o jogo e adotou um esquema tático inteligente, fechado na defesa e esperando um contra-ataque.

A derrota talvez tenha preparado o caminho para as vitórias que se seguiram. O futebol brasileiro amadureceu tática e psicologicamente, compreendendo que só a técnica não vence os jogos. Vencemos três das cinco Copas do Mundo seguintes e nos tornamos o “país do futebol”, encantando o mundo com craques como Pelé e Garrincha.

Mas não aprendemos tanto assim. Nosso futebol prosseguiu com seus defeitos de organização, seu amadorismo na direção dos clubes e a nefasta exploração política da paixão do nosso povo pelo esporte.

Os demais países melhoraram muito suas estruturas e seus jogadores, revelando também grandes craques e acabando com a mítica superioridade técnica do jogador brasileiro.

Nosso próximo trauma foi menos romântico e, com certeza, mais embaraçoso. A Copa do Mundo voltou ao Brasil após 70 anos e o otimismo de uma nova conquista também, especialmente após um grande triunfo na Copa dos Campeões em 2012.
Porém, no nosso caminho havia a Alemanha, com um time tática e tecnicamente bem superior. A vitória alemã era o resultado mais provável contra um time brasileiro que não tinha deslanchado na competição. Pior, o Brasil jogaria sem o seu maior craque, Neymar, responsável pelos melhores momentos do time até então.

Era o momento de sermos o Uruguai, jogarmos na defesa, concentrados e esperando um contra-ataque para vencer um time superior.

Infelizmente, nosso treinador acreditou que a camisa amarela joga sozinha, escalou um time ofensivo e o resultado foi um vexame histórico.

O pior é que, diferentemente do que ocorreu em 1950, não aprendemos nada com este novo e retumbante fracasso. Nosso futebol permaneceu com os mesmos vícios de antes, com uma desorganização e um amadorismo desonesto, que enriquece dirigentes e empresários, enquanto drena para o mercado europeu promessas de craques cada vez mais jovens.

Assim, o “7 a 1” virou um “meme”, como diz a garotada, mas não nos fez aprender a lição da história. O futebol não é um retrato exato de uma sociedade, mas revela algumas de suas características. Um Brasil que elegeu Bolsonaro ainda tem muito o que aprender, seja no futebol, seja como sociedade.

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