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Brasileiro morto no metrô em Londres: 17 anos sem punição

Em 22 de julho de 2005, o brasileiro e eletricista Jean Charles de Menezes, então com 27 anos, foi assassinado pela SCO19, unidade armada da Scotland Yard, dentro de um trem do metrô de Londres, na estação Stockwell, na Inglaterra. Os policiais confundiram o jovem com um terrorista árabe, suspeito de tentar realizar um fracassado atentado a bomba no metrô no dia anterior. Até hoje, 17 anos depois, os autores do brutal assassinato não foram punidos pela justiça inglesa.

Os fatos ocorreram duas semanas após os atentados de 7 de julho, quando uma série de explosões atingiu o sistema de transporte público de Londres, matando 56 pessoas. O erro foi admitido pela Scotland Yard, que informou que o brasileiro não tinha nenhuma relação com qualquer grupo terrorista. Segundo a autoridade policial, o incidente ocorreu porque a vítima se recusara a obedecer às ordens de parar. Dois policiais dispararam um total de onze tiros, de acordo com o número de invólucros vazios encontrados no chão do vagão. Jean foi baleado sete vezes na cabeça e uma vez no ombro, bem de perto, e morreu ali mesmo. A ação violenta dos policiais se deveu às diretrizes da operação Kratos, que visava combater potenciais homens-bomba.

Natural de Gonzaga, em Minas Gerais, Menezes nasceu no dia 7 de janeiro de 1978. Cresceu numa área rural, a 300 km de Belo Horizonte. Depois da descoberta de um talento precoce para a eletrônica, ele deixou a fazenda, aos catorze anos, para morar com seu tio em São Paulo e prosseguir seus estudos. Aos 19 anos recebeu um diploma técnico da Escola Estadual São Sebastião. Entrou no Reino Unido, em 2002, com um visto estudantil, e com apenas quatro meses na Inglaterra já tinha um bom domínio do inglês e trabalhava para mandar dinheiro para a família. No momento de sua morte, morava em um conjunto de apartamentos em Tulse Hill junto com seu primo, Alex Pereira – onde também residia o terrorista Hussain Osman, natural da Etiópia, mas com nacionalidade britânica, que participou da tentativa de explodir bombas em trens do metrô londrino na véspera. Após deixar o local para trabalhar, Menezes foi confundido com Osman, passando então a ser perseguido pela polícia.

Na Estação Stockwell, do Metropolitano de Londres, agentes dispararam onze tiros à queima-roupa contra Menezes, os quais sete tiros atingiram sua cabeça e um seu ombro, levando-o a morrer instantaneamente no local. Seu corpo foi levado para o Brasil, onde foi sepultado no cemitério de sua cidade natal. O governo brasileiro condenou a execução, e Menezes recebeu diversas homenagens, incluindo um memorial na estação Stockwell que foi inaugurado em 2010.

No Reino Unido, a polícia instaurou duas investigações para apurar o caso: a primeira concluiu que nenhum dos policiais deveriam enfrentar processos disciplinares e a segunda criticou fortemente a estrutura de comando da polícia e suas comunicações com o público. A promotoria também decidiu que não haviam provas suficientes para processar nenhum policial, mas iniciou ação contra o comissariado da polícia, que foi multado. A família de Menezes, que recebeu indenização da polícia britânica, recorreu da decisão de não processar os policiais, mas o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos julgou por maioria que as autoridades do país investigaram adequadamente o caso.

Durante a turnê The Wall Live em 2011 na Nova Zelândia, Roger Waters cantou uma versão da música Another Brick in the Wall com letras diferentes em homenagem a Jean Charles. O nome dessa versão é “The Ballad Of Jean Charles de Menezes”. A partir desse show, a música foi incorporada em todos os shows seguintes da turnê, inclusive no Brasil onde foi muito aplaudida. Incluída também na versão comercializada (documentário e CD) que foi para os cinemas e para os DVDs.

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