O Banco de Portugal acaba de pôr um número no nosso maior problema: faltam 300 mil casas – “uma Lisboa inteira”, nas palavras do governador. Quase toda a gente leu isto como uma crise. Proponho que o leiamos como a maior oportunidade que Portugal tem há gerações. Se nos falta uma cidade inteira, talvez a resposta não seja remendar mais um loteamento aqui e mais um andar ali. Talvez seja, pela primeira vez em meio século, construir uma cidade – de raiz, em Sines, à volta do porto, da energia limpa e dos data centers que já la estão a nascer.
E não é preciso imaginar a procura: ela já existe e não está a ser satisfeita. Sines vive hoje uma crise de habitação aguda, provocada pelo seu próprio sucesso – mais de vinte mil milhões de euros de investimento anunciado, dezenas de projetos em curso e milhares de trabalhadores a chegar. O preço do metro quadrado duplicou em três anos; a Administração do Porto de Sines chegou a não conseguir preencher 1.800 vagas porque não havia onde alojar quem as quisesse ocupar, com um T1 a custar 1.500 euros por mês. Os investidores privados já começaram, por sua conta, a construir casas. O que falta não é a procura, nem sequer o capital: é a escala, a ambição e o plano que só o Estado pode dar – a cidade à volta de tudo isto.
Um ensaio sobre como transformar o défice de habitação no projeto mais ambicioso do século – e sobre o papel do Estado: planejar e licenciar, não construir.

