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“Quem nasceu vaqueiro de bode … “

O ano de 2021 começa com uma crítica do jogador de futebol do PSG da França, Neymar à mídia por ter , segundo ele, estragado seu fim de ano ao denunciar que ele pretendia, em plena pandemia, promover em sua mansão em Mangaratiba, na costa verde do Rio de Janeiro, uma festa para mais de 500 pessoas na virada do ano. Neymar deixou Mangaratiba antes da chegada do novo ano.

A notícia de uma festa para centenas de convidados foi antecipada pela coluna do Ancelmo Gois, do jornal O Globo, e causou repercussão negativa para o jogador devido à pandemia da Covid. Entre os supostos convidados do evento estariam artistas, atletas e modelos.

O condomínio ganhou destaque na imprensa por ter tido entre os moradores o ex-governador Sérgio Cabral, cuja mansão foi palco de negociatas e acabou leiloada pela Lava-Jato por R$ 6,4 milhões.

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) decidiu abrir um procedimento e investigar se uma festa supostamente organizada pelo jogador Neymar na Costa Verde, segue os decretos restritivos vigentes nesta época de pandemia.

A 3ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Núcleo de Angra dos Reis, município vizinho, notificou o próprio atacante, assim como os condomínios Portobello e Aero Rural, em caráter de urgência, para que prestem os esclarecimentos necessários sobre os eventos de virada do ano. Os promotores querem saber o número de convidados e obter informações sobre a organização do evento e eventuais medidas sanitárias adotadas.

Em despacho na sua página no Facebook, o ex-presidente da EBC, o jornalista Laerte Rímoli, hoje residindo nos Estados Unidos,  afirma que ” o cara é pior do que a gente pensava. Faz festa que agride regras do distanciamento, demonstra total ausência de solidariedade com as familias de 200 mil mortos pela Convid19 (números oficiais, subnotificados) e não tem vergonha do exibicionismo barato. Pobre juventude brasileira. Ídolos deste quilate dizem muito sobre o negacionismo que impera no Brasil. Que falta faz ética”.

Rímoli lembra uma frase cunhada pelo falecido jornalista alagoano Tobias Granja, que se destacou como repórter das revistas Manchete e O Cruzeiro: “Quem nasceu vaqueiro de bode não chega à chifre de caminhão”.

Francisco Guilherme Tobias Granja nasceu em Palmeira dos Índios, em Alagoas,  no dia 13 de fevereiro de 1945.  No início da década de 1960, com 15 anos e já morando em Maceió, destacou-se como líder estudantil secundarista chegando a presidir a União dos Estudantes Secundarista de Alagoas, a UESA.

Ainda jovem, começou a trabalhar no Banco do Brasil. Depois do golpe militar de 1964, iniciou sua carreira de jornalista na imprensa do Sudeste, sendo repórter das revistas Manchete e O Cruzeiro. Nesse período, conclui o curso de Direito Em meados da década de 1970, voltou a Maceió e continua no jornalismo, além de advogar. Foi candidato a deputado federal em 1974, mas não conseguiu se eleger.

Em dezembro de 1978 tem início uma verdadeira guerra em Alagoas entre as famílias Omena e Calheiros, com várias mortes de ambos os lados. Tobias Granja atuou na defesa do Cabo Henrique e seus irmãos no julgamento pela morte de Ernesto Calheiros e conseguiu a absolvição de todos os acusados.

No entardecer do dia 15 de junho de 1982 , na Rua Augusta, Centro de Maceió, Tobias Granja, com 37 anos de idade, foi abatido com um tiro na nuca. Dagoberto Calheiros foi acusado e indiciado por ser o mandante do crime. A execução foi atribuída a Nezinho, que contou com o apoio de Napoleão. Todos cumpriram pena e foram liberados por progressão de regime

O Cabo Henrique não esperou que a lei fosse cumprida e resolveu vingar a morte do advogado. O alvo escolhido por ele foi oTenente Cavalcante Lins, também da família Calheiros e que teria planejado o crime de Tobias Granja, além de já ter contra ele denúncias por vários outros crimes.

A vingança foi consumada às 13 horas do dia 13 de julho de 1982, menos de um mês após o assassinato de Tobias Granja. Cavalcanti foi morto dentro do seu fusca branco, na esquina da Praça do Montepio, a poucos metros do Quartel da PM, de onde tinha saído há poucos minutos.

Tobias Granja, quando morreu, era candidato a deputado federal pelo PMDB. Seu assassinato motivou forte reação dos jornalistas alagoanos, que tinham Denis Agraà frente do sindicato da categoria. O Sindicato dos Jornalistas, a OAB e outras entidades da sociedade civil denunciaram o clima de insegurança e a pistolagem institucionalizada.

Exatamente um ano antes de ser assassinado, no dia 15 de junho de 1981, Tobias havia peticionado  ao presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas. Sob o protocolo nº 22.489, ele praticamente vaticinou: “A armacontra a covardia é a fé, a convicção na verdade. Nem as emboscadas, nem as bombas nos amedrontam, porque uma ideia não morre no meio do fogo. Se for preciso, entrego  minha vida em sacrifício”.

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